Carnavalesco Leandro Vieira revela como surgiu a ideia do título do enredo - Foto: Oscar LIberal

Série Barracões: Com um vasto vocabulário artístico, Leandro Vieira aposta nas múltiplas faces de Cristo para retratar o Jesus que não está no retrato

Em contagem regressiva para o maior espetáculo da Terra, o Site Carnavalizados deu início às visitas aos barracões da Cidade do Samba para conversar com os artistas da festa e conhecer um pouco do trabalho que cada escola vai levar para a Sapucaí. Em uma tarde verde e rosa, a equipe foi recebida pelo carnavalesco Leandro Vieira, que falou sobre suas intenções artísticas, sobre o desenvolvimento do enredo que a Estação Primeira de Mangueira vai apresentar no carnaval de 2020: A Verdade Vos Fará Livre.

Em seu quinto ano à frente da escola, Leandro Vieira acumula duas aclamadas vitórias: a primeira em 2016, com uma homenagem a Maria Bethânia, com o enredo A Menina dos Olhos de Oyá; a segunda, no último carnaval, com Histórias para Ninar Gente Grande, em que propôs uma nova leitura sobre a história oficial do Brasil, com destaque para a importância dos índios, negros e pobres para a construção da identidade nacional.

Na busca pelo bicampeonato, em 2020 o carnavalesco resolveu exaltar a beleza de uma das histórias mais conhecidas da humanidade: a vida, os valores e os ensinamentos de Jesus Cristo. Com o olhar peculiar de um artista, a homenagem ganha uma diversidade de traços, com um Jesus de múltiplas faces, humano e moderno. Um personagem que se fosse nosso contemporâneo seria filho do morro, crescido nos braços de uma comunidade como a Mangueira, onde atravessaria os desafios e obstáculos diários da pobreza e exclusão, sem deixar de lutar, de sorrir e aprender com a simplicidade do lugar e dos moradores à sua volta.

“A ideia do enredo da Mangueira é muito simples: é a biografia de Jesus Cristo, uma personalidade da história mundial, que de alguma forma todo mundo conhece.”

Característica marcante dos seus últimos trabalhos, Leandro avança sobre o potencial reflexivo do tema, que aposta na representatividade em torno da figura e dos valores pregados por Cristo, com uma valorização dos seus esforços na luta contra a opressão da sua gente. Revela, pois, que aquilo que público vai ver de diferente no desfile da escola não é a forma como Jesus nasceu ou morreu, mas os contornos com que esse Jesus aparecerá ao longo da apresentação.

“Eu parto do princípio que a figura de Jesus Cristo que nós conhecemos, por essência, já é inventada. Esse Jesus branco, dos olhos azuis, do cabelo loiro e comprido é uma invenção. Eu, então, tenho liberdade para fazer a minha ficção. E a minha ficção é feita ao gosto da comunidade pobre, preta e favelada que eu represento.”

O que o carnavalesco pretende com essa “invenção” é deixar claro que a verdadeira referência não é a imagem construída de Cristo, e sim seus ensinamentos. A forma que Jesus deve ser visto é aquela em que cada um se sinta representado, razão pela qual o público será surpreendido com uma diversidade de aparências para um mesmo personagem. Sobre as diferentes faces que Jesus assumirá ao longo da exibição mangueirense, Leandro Vieira confidencia:

“Toda vez que a figura de Jesus Cristo for mencionada ela será substituída por uma figura que pode ter a cara que eu quiser. E a cara que eu quero de alguma forma dialoga com as figuras oprimidas do Brasil; dialoga com os núcleos minoritários do Brasil do vigésimo ano do século vinte e um.”

Dessa maneira, o enredo veste-se de um discurso político com o qual o artista vem se relacionando com a comunidade da Mangueira e com os espectadores dos desfiles com muita habilidade e conforto. E não o faz de forma leviana. Baseia-se nas vivências de Cristo para desenvolver o seu conceito.

“A experiência de vida de Jesus está muito mais associada à figura do oprimido do que com as lideranças religiosas e com o discurso político dos tempos atuais. Hoje, a figura de Cristo parece ter virado uma espécie de fiadora de um discurso bélico, armamentista, segregador e de intolerância.”

O período conturbado de perseguição política sob uma bandeira ideológica atualmente dominante não constrange o trabalho do carnavalesco, que não camufla seu posicionamento ao levantar questões socialmente relevantes em seus desfiles, muitas vezes polêmicos, mas nunca ofensivos.

“As pessoas esperam loucuras, como se isso fizesse parte do meu vocabulário artístico. Esse tipo de loucura não faz parte do meu vocabulário artístico.”

Detalhes Barracão Mangueira Carnaval 2020 – Foto: Oscar LIberal

A loucura que o colocou em um lugar de relevância na história do carnaval está longe de ser a hostilidade a algum grupo social ou a criação de polêmicas por si só. Seu vocabulário artístico se levanta pela linguagem, que valoriza e estampa em cada fantasia e alegoria um conceito, um discurso, transformando o espetáculo em um espaço de ideias e reflexão. Sob essa lógica o enredo de 2020 retoma o caráter crítico apresentado nos últimos anos.

“A Mangueira terá todas as críticas sociais. A figura de um Cristo negro é uma polêmica, porque revela o genocídio da população negra no Brasil. Isso faz dele um Cristo político; um Cristo mulher, que denuncia o feminicídio e a agressão às mulheres no Brasil, também é político; um cristo indígena em um país que não sabe o que é a demarcação de terras e que até hoje não entendeu a contribuição dos povos tradicionais para a sua cultura é totalmente político.”

Assim como em 2019, Leandro Vieira busca a representatividade para a sua comunidade. A escolha como enredo de um personagem que lutou pelos pobres e contra preconceitos e exclusão ganha força no chão mangueirense para além do tempo de desfile.

“Na produção iconográfica do cristianismo, Maria e José foram apresentados como uma mulher branca e um homem branco. Representá-los na figura de Nelson Sargento e Alcione, um homem negro e uma mulher negra, é falar de representatividade. Representatividade é uma questão política. Apresentar um Jesus não normativo desperta o entendimento de que ele não era branco. Se não falarmos as pessoas não sabem que esse Jesus foi inventado pela Europa, pelos renascentistas, pelos pintores espanhóis.”

Comumente relacionado ao engajamento político que defendeu nos carnavais recentes, Leandro Vieira não gosta de ter seu trabalho rotulado, com características predefinidas.

“As pessoas tem tendência a limitar. Uma das maiores tendências da arte contemporânea é justamente o seu caráter irrestrito de diálogo. Eu faço carnaval contemporâneo. Eu não posso classificar meu carnaval como político, ou histórico, ou social, ou religioso, ou cultural. Não dá! O meu carnaval é político, histórico, social, cultural, religioso, barroco, contemporâneo, pós-moderno.”

Esse olhar diverso sobre a criação encontrou na Mangueira um espaço de diálogo, com um relacionamento muito próximo entre os moradores e as propostas de trabalho do artista. Sobre a recepção do projeto atual pela comunidade o carnavalesco não esconde a animação. Acredita que, por se tratar de uma história conhecida por todos, o poder de comunicação do enredo é ainda maior do que aquele que foi apresentado no último ano. A relação dos componentes com a história a ser contada, acredita, torna-se mais natural e vigorosa.

“Quando você propõe algo que conceitualmente é verdade para a sua comunidade, não tem como a energia não estourar. Eu acho que o enredo de 2020 tem ainda mais energia, por ter um poder de comunicação maior, com a Mangueira e com os espectadores.

O meu trabalho é diretamente ligado à identidade da escola. Como carnavalesco eu preciso encontrar a veia certa que vai jogar o enredo na corrente sanguínea das pessoas. Quando eu encontro isso, não tem para ninguém: pode faltar dinheiro; pode faltar alegoria; podem fazer carnavais milionários; pode ser domingo ou segunda. Ano passado eu encontrei o caminho. A Mangueira entrou na Avenida possuída pelo enredo. Eu acho que este ano temos um poder ainda maior nas mãos.”

Poder este que vem redimensionado na estética mangueirense. Ao ser perguntado sobre a plástica que adotará para o desfile deste ano, o carnavalesco pondera que apesar da consagração do conceito no último carnaval, que garantiu o campeonato da Mangueira, ainda há por parte dos julgadores um interesse pela opulência, o que legitimou Viradouro e Vila Isabel com a segunda e terceira colocação, dada a riqueza visual apresentada pelas escolas.

“Não seria injusto se Viradouro ou Vila Isabel tivessem sido campeãs. Mas o júri consagrou o conceito. Eu quero tentar o bicampeonato e, por isso, tenho que me cercar de todas as possibilidades. Se o júri demonstra que ele segue consagrando o visual também, eu tenho que fazer algo que dialogue com os dois lados. O meu carnaval de 2020, em termos visuais, tem uma opulência que eu nunca fiz na Mangueira. Talvez ela só encontre um ponto de contato com 2017, que é o meu carnaval mais opulento aqui. Então o enredo de 2020 soma crítica, soma todo o conceito que eu gosto de trabalhar, mas não abre mão da opulência do visual, que é bem superior aos carnavais que eu tenho feito.”

Superior também será a volumetria da escola. É a primeira vez que Leandro prepara um desfile com concentração no lado dos Correios, o que possibilita uma grandiosidade que o viaduto do lado oposto (Balança) limita. Como um bom estreante, está “aproveitando tudo o que é possível para uma escola que concentra nos Correios”.

Quando a sirene tocar e a escola atravessar a avenida rumo à Apoteose, os integrantes estarão embalados pelo samba de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Ao receber nossa equipe, Leandro vestia uma camiseta com os seus versos preferidos na obra: “Favela, pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão”. Uma provocação ao presidente e ao mau uso da fé para ascender ao poder. Indagado se não se preocupa com as críticas e agressões dos defensores do poder político atual, o carnavalesco foi categórico:

“Eu acho o máximo! Eu faço carnaval para isso. Faço um trabalho com interesse em dialogar com o mundo em que eu vivo.”

Foi desse mundo em que vive, aliás, que saiu a inspiração para o título do enredo. Nosso bate papo caminhava para o fim quando o carnavalesco revelou a origem da denominação, A Verdade Vos Fará Livre:

“Ao escolher o título, A Verdade Vos Fará Livre, eu queria fazer um diálogo com o início de quase todos os discursos do, até então, deputado, Jair Messias Bolsonaro. Quase sempre, ao abrir seus discursos, o deputado citava o versículo bíblico: ‘e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’ (João 8:32).

Quando eu decidi fazer um enredo sobre Cristo que dialogasse com a sociedade do Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos, eu queria dialogar com essa visão, com essa questão de como as pessoas enxergam as ideias de Cristo. Daí veio a brincadeira entre a ‘verdade’ da abertura dos discursos do atual presidente com o título do enredo da Mangueira.”

Perguntamos, por fim, qual é a verdade que pode nos libertar. Ao que obtivemos a seguinte resposta:

A verdade que eu acho que fará as pessoas livres é o entendimento de que o contorno físico e moral de Jesus Cristo é muito mais flexível do que a imagem que está no retrato. Precisamos saber que Jesus tem várias faces. Ele está em múltiplos perfis. O Jesus da Mangueira, parodiando o carnaval de 2019, é o Jesus que não está no retrato.”

Um comentário

  1. Maravilhosa matéria. Não sou Mangueira, mas estou doida para ver a leitura do Leandro sobre Jesus na avenida. Parabéns 👏

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