Confira a sinopse do enredo da Estácio para 2027

Na noite desta segunda-feira (11), a Estácio de Sá realizou a explanação da sinopse de seu enredo Centenário do Berço do Samba: Onde o Samba Virou Escola e o Brasil se Fez Carnaval”, de autoria do carnavalesco Marcus Paulo, celebrando o centenário da criação da primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar, nascida no bairro do Estácio, no complexo de morros do São Carlos, centro do Rio de Janeiro.

Introdução
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá tem como enredo o “Centenário do Berço do Samba: Onde o Samba Virou Escola e o Brasil se Fez Carnaval”, a primeira escola de samba do Brasil apresenta a perspectiva de um plano dimensional no qual se constroem narrativas dos bambas em tempos idos e do processo histórico das escolas de samba cariocas. Além disso, o enredo dialoga com a historiografia do bairro, especialmente com a da sua escola de samba, herdeira da Deixa Falar, amplamente referenciada na história do carnaval carioca. A inesquecível Turma do Estácio, eternizada na memória dos sambistas, volta a se reunir em uma dimensão alternativa, recurso próprio da natureza poética e imaginativa do artista carnavalesco e dos sambistas, capaz de atravessar o tempo e criar mundos possíveis. Nesse plano, o passado não se encerra, mas dialoga com o percurso das escolas de ontem e de hoje. Nesse universo imaginário, território mítico, as cenas da vivência no bairro do Estácio, das perspectivas dos bambas reunidos à mesa de bar e do percurso seguido pelas escolas de samba cariocas até a atualidade passam diante dos olhares de Ismael Silva, Bide, Baiaco e Marçal. Outrossim, o enredo reúne narrativas desses bambas em outra dimensão, bem como aportes literários que abordam a geografia e seus personagens, além de contribuições orais sobre esse lugar de criação das hoje mundialmente reconhecidas escolas de samba.

Sinopse do enredo:

Centenário do Berço do Samba: Onde o Samba Virou Escola e o Brasil se Fez Carnaval [Quem vem lá, quem vem lá é o velho Estácio… Estácio escola primeira veio saudar a Portela cumprimentar a Mangueira…] (Quem Vem Lá – samba de Bide – Marçal) As memórias dos sambistas e a literatura sobre o samba, voltadas às escolas de samba, demonstram que, no coração do Rio de Janeiro, existe um lugar onde o tempo aprendeu, e ainda aprende, a sambar de forma genuína. Trata-se do Largo do Estácio, localizado próximo aos antigos templos do samba e ao atual Sambódromo da Marquês de Sapucaí, espaço onde as escolas de samba revivem histórias e memórias. Nesse lugar, as memórias atravessam décadas, e ecos de batuques que nunca se calaram ressoam ao longo de um século. Ali, um antigo bairro guarda histórias que pertencem à própria origem do carnaval, sobretudo quando se trata de seus protagonistas: Ismael Silva, Bide, Baiaco e Marçal. Nesse território simbólico, onde passado e presente se encontram como versos de um mesmo samba, a mesa do velho Estácio permanece viva no imaginário dos estacianos, como se os bambas observassem não apenas a agremiação, mas também o carnaval e suas transformações ao longo do tempo. Nesse cenário, aqueles que deram origem ao maior espetáculo da Terra, criadores de novos ritmos e instrumentos que ecoam até a atualidade, seguem a zelar pelo samba-enredo e pela escola de samba Estácio de Sá a partir de outra dimensão. Assim, esses bambas, ao romperem com a lógica dos ranchos carnavalescos, propuseram uma nova estrutura baseada em ritmo, organização e narrativa. Nesse sentido, a Deixa Falar, escola de samba criada por eles, não apenas inovou, como instituiu um paradigma para esse novo modelo de samba concebido pelos bambas do velho Estácio. 

Ao criar a onomatopéia bumbum paticumbum prugurundum, Ismael Silva indicava que tal conceito nasceu para estruturar a marcação rítmica do samba, utilizada não apenas para orientar o ritmo, mas também como forma de chamado para o ato de sambar. Em linhas gerais, buscava-se uma configuração que organizasse a festa, orientasse o samba e o desfile, criando uma cadência própria que daria origem à base rítmica das baterias. Na concepção do sambista, essa expressão sintetizava a profundidade do carnaval das escolas de samba, ancorada na ancestralidade afro-brasileira e no ritmo popular. Evocava, ainda, batidas que dialogavam com tradições de terreiro1, nas quais pulsos graves, repetições e chamadas coletivas estruturam a comunicação entre corpo, música e comunidade. Nesse contexto, o enredo se debruça sobre os desejos de transformação desses homens em vida e sobre suas reflexões, agora ampliadas por outro tempo, acerca dos frutos gerados pela semente plantada no momento em que nascia a cultura das escolas de samba cariocas. Ao mesmo tempo, celebra a permanência dessa obra viva, refletida na criatividade dos enredos e sambas que conquistaram o povo e se tornaram parte essencial da identidade cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. Isso posto, o bairro tornou-se, então, uma verdadeira sala de aula do samba, uma vez que o termo escola passou a integrar os desfiles de maneira mais abrangente.

A historiografia do samba revela a importância dessa concepção, visto que outros sambistas passaram a frequentar esse espaço da cidade. A coletividade, voltada aos desfiles, ganhou novos contornos, sustentada por instrumentos, poesia popular, criações e diálogos. Desse modo, o carnaval carioca consolidou-se como uma das festas mais populares do país, ultrapassando fronteiras nacionais. Nesse universo, os bambas veem, diante de seus olhos, cenas que remontam à formação da escola de samba Estácio de Sá, resultado da união de outras agremiações ao longo de décadas de história do samba no Morro de São Carlos, território que preservou o espírito da escola pioneira. Por conta dessa natureza festiva carnavalesca, a tradição segue viva nos becos, nos quintais e nas festas populares, reinventando-se como forma de resistência cultural. Nesse contexto, revelaram-se artistas, pensadores e vozes marcantes da cultura brasileira. Entre eles, Acelino dos Santos, o Bicho Novo, lendário mestre-sala do carnaval carioca, Luiz Melodia, cuja obra dialoga com a boemia e o compasso do Estácio, Dominguinhos do Estácio, de voz potente, Gonzaguinha, cuja poesia transformou dor em esperança, e tantos outros bambas, compositores e intérpretes da alma suburbana que ecoa nas esquinas do Rio. É nesse mesmo fluxo de memória e continuidade que a Turma do Estácio, em dimensão simbólica, se reúne à mesa com outros bambas2 de grande relevância para o universo das escolas de samba. Ali, a fina nata da malandragem, trajada no puro linho, com gomas e vincos impecáveis, divide espaço com as mulheres da vida, figuras marcantes das noites do Estácio, de riso fácil, perfume forte e olhar sabido, que também faziam pulsar aquele território boêmio. Entre copos tilintando, o riscar dos fósforos, a fumaça dos cigarros e conversas atravessadas, malandros e damas da noite se encontram para rememorar e celebrar tempos idos e presentes, compondo o cenário vivo de uma época em que a rua era palco, abrigo e poesia, ampliando o coro de vozes que sustentam, preservam e reinventam essa tradição.

As cenas de transformação observadas pelos bambas ultrapassam as ruas do bairro e alcançam a Avenida Marquês de Sapucaí, que transformou o sonho em espetáculo. Em suas memórias, os desfiles não nascem em um palco fixo, mas percorrem a própria história urbana do Rio de Janeiro. Antes da consolidação de uma passarela definitiva, o carnaval foi itinerante, ocupando diferentes espaços da cidade3, acompanhando o crescimento da festa. Hoje, esse templo do samba é o espaço onde, ano após ano, se escrevem narrativas heróicas, ficcionais e realistas pelas agremiações cariocas. Nessa ambiência, os bambas reconhecem que a história do samba se constrói pela genialidade coletiva das escolas. Suas transformações foram, e continuam sendo, a força motriz que impulsiona projetos e mudanças ao longo de um século, evidenciadas nas disputas memoráveis. A Turma do Estácio se encanta com cenas marcadas por enredos estacianos, que trouxeram elementos da sua própria história que: atravessaram o sul do país em festas populares; trataram de eventos poéticos; perfumaram o ar com cravo, canela e com o sapoti; iluminaram-se em procissões de fé; transformaram-se em hino de torcida de futebol; exaltaram a negritude como força ancestral; ecoaram nas ondas do rádio e transformaram a noite boêmia em espetáculo de cultura e identidade. Eles ainda contemplaram as coirmãs, que trouxeram para a avenida a amplitude da religiosidade, a irreverência, a crítica social, a arte e a história, como ciência, literária, além de corpos e alegorias, que passaram a desafiar os limites das visões atentas ao espetáculo. Entre olhares cúmplices e silêncios, os bambas reconhecem o Estácio como origem viva, raiz que floresce no tempo. Acima de tudo, ventre criador de inúmeros desdobramentos culturais que se expandiram pelo país e alcançaram projeção internacional. Ademais, o chamado de seu tambor cadenciado organizou e ainda organiza o corpo, conduz passos e dá forma ao cortejo carnavalesco admirado em diversas partes do mundo. Por fim, os mestres do Estácio se entreolham e percebem que o tempo sorri para aquela mesa de bar onde tudo começou. Entre memórias e acordes imaginários de um velho cavaquinho, surgem recordações que não se expressam apenas pelos nomes dos protagonistas, mas pelas sensações que deixaram. 

Justificativa Centenário do Berço do Samba: Onde o Samba Virou Escola e o Brasil se Fez Carnaval […]A primeira Escola de Samba Surgiu no Estácio de Sá Eu digo isso e afirmo E posso provar[…] (Jota Sandoval- Pereira Mattos) A criação das escolas de samba representa a afirmação de saberes historicamente marginalizados, reconhecendo a religiosidade, os nomes, as artes e as culturas afrodescendentes como fundamentos legítimos da identidade nacional. Nesse cenário, celebrar o centenário de uma instituição é honrar uma herança de resistência e resiliência, marcada por transformações sociais e culturais que se inscrevem como um dos mais potentes movimentos de decolonialidade4 da sociedade brasileira. Ademais, a decolonialidade enfrenta os processos de apagamento do ser, do saber e do pertencer vividos pela diáspora africana, afirmando suas memórias, espiritualidades, linguagens e formas de existência como centrais na construção da sociedade, o que encontra plena correspondência nas escolas de samba. Um século de existência é uma biografia de gratidão. Um centenário representa a solidificação de valores, o desenvolvimento de gerações e a capacidade de inovar sem romper com as tradições. É a ocasião de reconhecer a dedicação de fundadores, da comunidade e de todos aqueles que, ao longo do tempo, construíram essa história. 

Nesse sentido, o Grêmio Recreativo Estácio de Sá justifica este enredo ao trazer como protagonistas Ismael Silva, Bide, Baiaco e Marçal e toda a Turma do Estácio, por ideias que renovaram, em tempos distantes, os desfiles carnavalescos. Em um plano dimensional, eles narram a trajetória da agremiação e reverenciam suas coirmãs com respeito e admiração pelos feitos consagrados nas avenidas de desfiles ao longo de suas décadas de existência. A trajetória de um século do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá trazida por memórias, legados e lembranças, destaca sua contribuição para o carnaval carioca e para o Brasil. O caminho percorrido pela agremiação transformou o que hoje conhecemos como a grande festa carnavalesca do país e foi assim, no passado, que muitas outras escolas de samba buscaram suas identidades e encontraram caminhos para construir sua própria história no cenário do carnaval. Logo, essa celebração de cem anos evidencia uma geografia que, em um passado distante, foi decisiva nas transformações do carnaval e da sociedade. Ao mesmo tempo, projeta-se para o futuro, comprometida com a continuidade de processos criativos e inovadores. Assim, essa celebração não pertence apenas à Estácio de Sá, mas também à cidade, às coirmãs, à comunidade e ao Brasil.

 

Autores: Marcus Paulo e Cristina Silva 

 

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