Última Rodada!

Quadra de escola de samba, período pós-carnavalesco. Quadra cheia, velha-guarda vestida com seus trajes de festa e para nossa sorte, condizente com a temperatura de um dia ameno, propício para matar uma pratada de cozido em homenagem à componente da velha-guarda.

O evento foi fechado e ali eu estava a convite da homenageada do dia, envolvida com samba desde os idos anos cinquenta. Chegou de salto, cabelo bem lustrado no henê e roupa de linho habitualmente quarada e vincada a ferro.

Entramos, acomodou seus filhos sexagenários e respectivas esposas. Discretamente maliciosa, gostava das noras por perto, aguardava que algum espírito de porco passasse elogiando sua forma física esbelta, no auge de seus oitenta anos, comparada ao sobrepeso das noras. Tal feito era consciente e quando assim se dava, mais sambava e agradecia discretamente para não chatear tanto as duas que nada comentavam, apenas mascavam pedaços de aipim.

Cantaram muito Roberto Ribeiro, alguém pediu que tocassem Jamelão, mas não deram bola. Sambas da agremiação comeram solto, daí me dei conta de que cantar sambas de grupo especial é moleza, mas quando a escola é da Intendente Magalhães e você conhece, imediatamente passa a ser considerado, afinal o sujeito foi dar atenção às terças-feiras da pista do samba de Jacarepaguá, respeitemos.

Muito samba, leques, chapéus, alguns dentes repletos de batom e boas vindas às amigas que chegavam. Mesas com senhores bem alinhados e algumas senhoras convidadas, usavam roupas com brilhos, estolas e bolsas com alças douradas, embora fossem duas da tarde. Todos na beca e muita disposição para retoques, sempre brotando espelhinhos para reforçar batom ou passada rápida de pente nos topetes.

Três da tarde, todos sambavam e a cada senhor que passava observando a movimentação, mais elas dançavam. Quatro da tarde, assim continuavam. Vi dar seis horas e a animação era inabalável, ninguém punha as mãos na coluna ou joelhos indicando fadiga, apenas paravam de sambar para passear entre mesas de amigos e aumentar o coro para cantorias.

Vi dar sete da noite, ponto alto da animação, quando lembraram que havia um bolo frutado para a homenageada. O tempo passa, o bolo é mais uma vez esquecido, talvez seu corte demarcasse o fim do evento e o que queriam era continuar o arrasta-arrasta do samba. Ali estavam para estender ao máximo o evento, não cabendo assunto de dores, médicos e netos.

Às nove da noite relembraram que existia um bolo para cortar. Este já se encontrava no breu, escondido ou já esquecido entre garrafas, pratos vazios, guimbas, vasilhas plásticas e sacolas de roupas.

Acharam o bolo, o cansaço que sempre achamos natural nos velhos, já havia me tomado e quando pensei que tinha visto de tudo um pouco, uma senhora arrastou seu companheiro de dança para um beijo encostado na mureta. Esqueci tudo e me dei conta do quanto pré-estabelecemos comportamentos para idosos. Pensei nas dores de joelhos e coluna, me flagrei almejando bolo, enquanto eles lindamente sambavam e namoravam no escurinho do muro.

Quinze dias depois desse festejo impecável, a tia cansou e durante uma tosse, resolveu partir dessa para melhor, sambando por novas bandas.

Meri Santiago é Cientista Social, Antropóloga e Costureira.

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