Foto: Kenneth Lacerda

Futica, o carpinteiro da folia

Com trinta anos de dedicação quase exclusiva ao Carnaval, o Mestre das Madeiras fala um pouco sobre sua paixão pelo trabalho e pelo espetáculo: “Carnaval pra mim é tudo”

Quando você assiste aos desfiles das escolas de samba, com aqueles carros alegóricos imponentes e luxuosos, fantasias multicoloridas, pode não se dar conta que, por trás de toda beleza do espetáculo, existe um mundo particular de profissionais anônimos dando forma àquela folia.

Edson de Lima Miguel, 50 anos, mais conhecido como “Futica”, iniciou sua atividade profissional  no ano de 1981, como aprendiz de carpinteiro na União da Ilha. Ali sob o comando do mestre Martins, a carpintaria fez incontáveis aberturas para sua carreira profissional. São mais de 30 anos dedicados ao carnaval. Além da União da Ilha, tem passagens por Unidos da Tijuca, Portela, Estácio e Vila Isabel, e atualmente se dedica a duas grandes escolas: Salgueiro e São Clemente.

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

Nos meses que antecedem o Carnaval, Futica deixa de lado a produção de móveis e peças cenográficas para o teatro e passa a viver o seu sonho. Ele se muda para o barracão do Acadêmicos do Salgueiro, onde trabalha desde 1993 como mestre carpinteiro, responsável por dar forma às alegorias da agremiação. Ali, seu talento e habilidade se reuniram, transformando Futica em um dos profissionais mais respeitados do carnaval, reconhecido por honrar seus compromissos e topar grandes desafios.

Ele diz que gosta do trabalho do dia a dia, mas é na escola de samba que seu coração bate mais forte. “O carnaval pra mim é tudo. O nosso mundo é o carnaval, sem ele a gente não consegue fazer nada. Ainda mais quando seu trabalho é reconhecido na avenida. Todo  esforço é recompensado durante o processo de produção até o resultado final. Ouvir, no dia do desfile, a presidente da escola falar o seu nome para milhões de pessoas é muita adrenalina, muita adrenalina, mesmo”, se emociona.

 O começo de tudo, a gratidão

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

Mesmo sem ter frequentado o colégio, foi na fábrica de sonhos que aprendeu a arte de manusear a madeira, cortar, lixar, plainar, tirar proporções. “Meu primeiro contato com a madeira foi com o português chamado Martins. Ele morou lá perto de casa. Eu era moleque, vivia mais na rua do que trabalhava. Nunca gostei muito de estudar, mas graças a Deus, ele (Martins) não desistiu de mim. Hoje em dia sou isso que sou, e agradeço a ele”, conta Futica.

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

O Mestre das Madeiras admite que a maior dificuldade é encontrar mão-de-obra qualificada no Carnaval. “Montar uma equipe de trabalho tem sido o grande desafio. As dificuldades são diversas, burocracia, idade, falta de especialização. Tanto que os artesãos que trabalham atualmente são formados aqui dentro por nós mesmos, que aprendem atuando na prática dentro dos barracões. Formamos profissionais para o Carnaval. Eles estão todos em cima do carro agora, trabalhando. São todos profissionais que fizemos aqui dentro”, revela Futica.

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

Mesmo com toda dificuldade, Futica continua firme e forte para fazer o que mais gosta. Sua produção no Carnaval começa a partir do mês de setembro, quando os barracões começam a dar sinais de vida. Após o desmonte das alegorias um novo processo de construção se inicia.

 A arte saindo do papel

 A carpintaria começa logo após as ferragens ficarem prontas para compor o cenário, e segue a risca o projeto do carnavalesco. São 5 meses de trabalho intenso, horas e horas no manejo de serras, pregos e martelo, para materializar e preparar o carro alegórico para a etapa seguinte. Futica se movimenta pelo barracão atento ao trabalho de sua equipe, e se encarrega para que cada detalhe se encaixe de forma regular e perfeita. Nessa etapa, a alegoria, um dos principais elementos do Carnaval, começa a ganhar forma, função e existência.

Foto: Kenneth Lacerda/Carnavalizados

Assim, o negócio e a profissão prosperam sobre a madeira e cola. A carpintaria virou fábrica de sonhos. E de sonho em sonho, existe no carnaval um profissional que respira, corta e molda madeiras. Um profissional anônimo, um verdadeiro artista, responsável por tirar do papel e reproduzir as mais mirabolantes ideias de seus carnavalescos. Onde criatividade e habilidade são fatores imprescindíveis para que os carros alegóricos se materializem.

Nesse ambiente, que hoje domina a arte da madeira, com uma equipe formada pela família e os “mais chegados”, entre o barulho de serras, batidas de martelo, está sendo desenvolvido um trabalho artesanal que irá se transformar em verdadeiras obras de arte na Marques de Sapucaí. Agora, toda vez que olharem para os carros alegóricos do Salgueiro, lembrem-se: foi o Futica quem fez.

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