O Pescador/Portela 2017 - Foto: Paulo Portilho/Riotur

Alexandre Maguolo, o protagonista de Paulo Barros

Por Cristina Frangelli e Gabriel Cardoso

O que Wally (Onde está Wally?), professor Dumbledore (Harry Potter), o Rei Luiz XIV, Moisés e um pescador têm em comum? Aparentemente nada. Mas todos foram personagens marcantes na Marquês de Sapucaí. E todos ganharam vida pelas mãos da mesma pessoa: Alexandre Maguolo, uma das figuras mais requisitadas para os desfiles de Paulo Barros.

Ator, dublador, diretor e coreógrafo, Maguolo tem 46 anos e mais de 30 peças no currículo, entre elas Os Esculaxados com direção de Chico Anysio. Atualmente, dedica-se mais à dublagem, uma profissão que, segundo ele, “não rendeu luxo, mas deu estabilidade”.

Desde a década de 90 que Alexandre Maguolo carimba sua paixão e participa dos desfiles. A estréia do artista no carnaval carioca foi em 1992, pela Unidos do Cabuçu, representando o Guardião da apresentadora Xuxa, enredo da escola naquele ano. “Nunca tinha desfilado no Rio, eu sempre passava meu carnaval em Minas Gerais, onde passei boa parte da infância. Meu pai era mineiro. Mas depois daquele desfile (da Xuxa), nunca mais quis voltar para Minas”, relembra Alexandre.

Mas foi somente lá pelos anos 2000 que seu trabalho começou a ser mais requisitado. E logo por ninguém menos que Paulo Barros. Pelos desfiles do carnavalesco, Maguolo já interpretou Wally (Onde está Wally?), o grande destaque fujão de uma das alegorias da Viradouro, em 2007. Foi também o professor Dumbledore, grande feiticeiro de Harry Potter, que fez uma mesa flutuar no desfile da Unidos da Tijuca, no ano de 2011. Também no pavão, no ano seguinte, deu vida ao Rei Luiz XIV, no enredo em homenagem a Luiz Gonzaga. Em 2015, foi o homem bomba que explodiu o carro da Mocidade.

Com mais de trinta anos de carreira, foram muitos os personagens na Avenida, e Alexandre Maguolo se reinventa em todos. Porém foram nos últimos dois anos que o ator teve os seus maiores desafios na carreira: o profeta Moisés (2016) e O Pescador (2017), ambos pela Portela. Segundo ele, o mais difícil entre os dois foi o “Pescador”, no desfile deste ano. Maguolo veio como destaque principal no quarto carro da Águia de Madureira, que retratou – muito bem – a tragédia ambiental do Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais. Toda dramaticidade deu o tom da dor e lamento daqueles que não só perderam o Rio, mas o rumo da própria vida.

O Pescador/Portela 2017 – Foto: Cezar Loureiro/Riotur

O ator conta ainda que ficou extremamente apreensivo com aquela atuação e que perdeu o sono dias antes do desfile. A participação trouxe de volta a lembrança da mãe, dona Wilma Maguolo, sua companheira de folia. “Assim que a alegoria entrou na Avenida, não teve jeito. O Pescador trouxe a lembrança da minha mãe no carnaval. Nós ficávamos no Setor 13, que é a dispersão, onde a gente tinha dinheiro pra comprar. Às vezes era cadeira, às vezes arquibancada. E aí, nossa. Já era emoção de estar representando a dor daquelas pessoas de Mariana, e quando olhei em direção à dispersão, vi a minha mãe. Eu despenquei de chorar, fiquei uma hora e meia chorando. E no final do desfile vendo o pessoal de Mariana com plaquinhas agradecendo, eu chorei mais ainda, passei mal de tanto chorar. Foi uma loucura”, relembra o artista, comovido.

Moisés, no ano anterior, foi o outro grande desafio de Maguolo. O ator cruzou a Marquês de Sapucaí justamente sobre a águia, símbolo maior da Portela. Nunca antes na história do carnaval um integrante havia sido colocado sobre a tradicional águia. “Foi uma emoção dupla, uma energia absurda estar sobre o símbolo maior da escola. ‘Moisés’ é o orgulho, o prazer, a honra de estar na história dessa escola linda que é a Portela. Isso não tem preço, é uma emoção que vai ficar comigo pra sempre. Moisés vai ficar na história”.

Moisés/Portela 2016 – Foto: Carlos Frederico March (Freddy)

Sua referência para compor o personagem do profeta Moisés foi a Pajé da Ilha de Marajó, do desfile da Beija-Flor em 1998, que vinha abençoando o público na avenida. “Minha religiosidade me ajudou no desempenho desse papel. Inclusive, o cajado que eu carregava foi bento pelo Frei Emerson da Igreja Nossa Senhora da Consolação e Correia, no Engenho Novo. A energia estava um absurdo em cima daquela águia”, revela Maguolo.

“Acho que Paulo já cria pensando em mim”

A parceria de Maguolo e Paulo Barros tem dado tão certo na Avenida que o ator caiu nas graças do carnavalesco, que já faz questão de incluí-lo constantemente em suas criações. O artista se diz fã incondicional de Paulo Barros, e com ele mantém uma parceria que já soma 12 anos. “A parceria com o Paulo é especial, é diferente, porque acho que ele já cria pensando que eu vou ser aquela pessoa. Estou sempre junto, não importa aonde. Ele sabe que sempre pode contar comigo”.

Entre muitas histórias da Sapucaí, Maguolo relembra especialmente de uma que ocorreu fora dela, na Cidade do Samba. Aos risos, o artista conta que quebrou todos os protocolos de segurança durante uma visita de ninguém menos que Michelle Obama, esposa do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. “Foi em 2011, ano que saí de Dumbledore. Michelle e seus filhos estavam de passeio no Rio de Janeiro e quiseram conhecer a Cidade do Samba e ver a badalada Unidos da Tijuca. Armaram um imenso esquema de segurança por lá. Coloquei minha roupa de Dumbledore, botei a barba falsa e fui recebê-los. Todo animado, e obviamente sem pensar, chamei as crianças para subirem no carro alegórico. Yes, yes, no problem! Depois pensei: imagina se elas caem de lá? Fiquei desesperado. O FBI inteiro me olhando, mas eu tinha mais medo era da cara do Paulo.”

Professor Dumbledore/Unidos da Tijuca 2011 – Foto: Lucíola Villela/G1

Apesar de quase iniciar a terceira guerra, Alexandre seguiu como ator número 1 das criações de Paulo Barros, e também como componente principal em outras agremiações do Carnaval. Em 2016, representou José Wilker no Abre Alas do Império da Tijuca, enredo que homenageava o ator felomenal. Esse ano, também pelo Império, Maguolo estreou como coreógrafo, encenando a morte de João Batista, no segundo carro da escola, O Templo de Herodes.

Seja destaque em carros alegóricos, no chão ou somente numa ala, para Alexandre Maguolo, o que vale é participar dessa grande festa. “Estou no carnaval por amor, por prazer. Eu não ganho um centavo. Isso passou a fazer parte da minha vida, virou inspiração para a criação e personificação dos meus personagens”. Entretanto, ele destaca que atuar em plena Sapucaí é totalmente diferente. “Requer muito ensaio e muita dedicação para compor a ideia do carnavalesco e emocionar o público.”

Entre palcos, estúdios de dublagem e passarelas, espetáculos, gravações e desfiles, dramas e folia, e lembranças do apoio materno, Alexandre Maguolo se firma como um dos grandes artistas múltiplos da Arte, e é inegável reconhecer seu talento.

Vida longa à Alexandre Maguolo!

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